Eu vou ser como a doninha – Data: 1994

Há quanto tempo é que existem os Da Weasel Como é que apareceram?

Pac Man — Os Da Weasel apareceram há seis meses a trabalhar a sério. E surgiram porque estávamos interessados em fazer um projecto de hip-hop. Falei com a Yen e a partir dai o JJ começou a compôr e a trabalhar os temas. A última pessoa a chegar foi o Armando, ao princípio só para ajudar nos samplers, mas envolveu-se, mais, compôs temas e agora faz parte do núcleo forte do grupo.

Escolheram o hip-hop. Começaram como grupo rap e depois alteraram! O que é que acham que é mesmo rap?Gangsta Rap?

P.M. – o rap é só vocal. Mas vimos logo que não nos agradava. O hip-hop dá-nos mais prazer.

Também porque revela os vossos gostos?

P.M. – É o que sai de dentro de nós.

Yen Sung – Tem a ver com aquilo que nós sentimos da música. O hip-hop é um meio musical de intervenção, e era isso que nós queríamos.

O que é que vocês queriam transmitir (para não conhece o álbum)? Porque é que cantam em Inglês?

Y.S.  – O inglês é uma língua internacional, toda a gente entende. E nós queremos que a nossa música chegue fora do país.

Foi Complicado chegar às letras deste álbum?

Y.S. — Ao princípio talvez, mas depois de surgir a primeira as outras foram surgindo. As letras são basicamente experiências pessoais.

Que tipo de experiências é que vocês relatam?

P.M. — A nossa realidade urbana: droga, problemas sociais, SIDA, criminalidade, hipocrisia…

As canções deste álbum revelam experiências pessoais! É o caso de “And A Life Goes On”?

P.M. — Trata da minha relação cm uma pessoa, com uma miúda que morreu de sida. É a história de quando a conheci e de tudo o que se passou desde então. É um tema dedicado a ela.

Um dos temas preferidos pelos rappers é o racismo! Acham que há racismo em Portugal?

P.M.— Eu já senti o racismo, mas não de forma violenta. As pessoas mais velhas são mais racistas. Mas há racismo!

Y.S. — Não se justifica fazer um álbum acerca do racismo em Portugal.

P.M. — Temos temas a falar do racismo mas não fazemos muita questão disso.

Musicalmente vocês investem em diversas áreas. Ou pelo menos na fusão de diversos estilos musicais. É nisto que vocês apostam?

P.M. — Inevitavelmente, vamos acabar por ter um som próprio. Por enquanto ainda é um bocado difícil. Os primeiros passos são para experimentar.

O meio que vocês utilizaram para fundir isto tudo foi a sampler. Qual é a vossa posição perante os problemas legais que o sampler e a «pilhagem» de outros temas tem levantado?

P.M. — O sampler quando é usado como instrumento, sem danificar o original, não tem problema nenhum.

«Mi-Ma- Mo», é um dos seis temas que fazem «More Than Thirty Mother Fucks», o mini-Lp de estreia dos Da Weasel. O que é que quer dizer?

Y.S. — Aquilo que queríamos transmitir é mais do que trinta palavrões. É mais do que palavrões.

O que é que têm achado da receptividade?

P.M. — Tem sido boa.

Querem assumir-se como um grupo de dança?

P.M. — É pelo menos um grupo que faz música que pode ser dançada.

O que é que acharam do vosso concerto?

P.M. —  O concerto correu bem. Demos o nosso melhor. As pessoas estavam na expectativa. Nunca tínhamos cantado em palco, mas correu bem…

Y.S. — Foi quase espontâneo.

Onde é que vai ser o vosso próximo concerto?

P.M. — No Johnny guitar, dia 21 de Julho. Depois vamos para o Porto. O concerto  vai ser o mesmo que na Gartejo.

Y.S. — As roupas vão ser diferentes.

Sei que vai haver um novo alinhamento no grupo. Querem falar disso?

P.M. — Vamos ter pelo menos um tema com colaboração de um ou mais rapers.

Como é que surgiu a edição do CD? foi uma coisa bastante rápida…

P.M. — Gravámos uma maqueta em Almada e mostrámo-la a várias pessoas. O Dimas ouviu e começou a prestar mais atenção. O Amândio Bastos ouviu o esquema das músicas já com os samplers e gostou. Como ele, na altura, estava a tomar conta dos estúdios da Valentim, convidou-nos para gravarmos — o dinheiro logo se veria. Ele estava a pensar em vender a uma multinacional e depois eles pagariam o trabalho. Isso não aconteceu e o Mário Dimas, que já estava mais ou menos comprometido connosco, decidiu editar ele o trabalho.

O que é que se passa na música portuguesa? Por um lado, os Bandemónio chegam ao terceiro lugar do top nacional; por outro lado, os U.S.L, tem os americanos atrás deles para editarem o disco?

Y.S. — Em relação aos Da Weasel, nós queriamos fazer isto não como Da Weasel, mas como projecto. Ainda não tínhamos condições nem sabíamos se havia pessoas interessadas. Os DJ’s ajudam bastante para que projectos como o nosso ou como os dos Bandemónio tenham aceitação. O rap e o acid-jazz ouvem-se muito mais do que há uns tempos atrás. Os músicos portugueses têm a mania de fazer música em português e não fogem à cultura.

P.M. — O mal é que, apesar disto, as editoras têm sempre medo de apostar em coisas novas. Apostam sempre numa fórmula que já serve há muitos anos. Mas agora, com estas bandas nova— e os Bandemónio são o exemplo disso — está mais do que provado que esse não é o caminho certo.

As letras em inglês são para facilitar a possibilidade de internacionalização, ou é mais fácil cantar em inglês?

P.M. — Ainda não colocámos de lado a possibilidade de cantar em português, mas é uma coisa que tem de ser feita com calma para ser bem feita.

Acham que está a haver uma aceitação por parte das pessoas em relação ao hip-hop, às matinés de rap, às noites?

Y.S. — As pessoas só não aderiram antes porque não existia nada. Não são só as discotecas e as noites: os grupos estão a aparecer. Ainda não se juntaram todos no mesmo sitío para ouvirem a música. Só quando começou a haver matinés de rap é que se começaram a conhecer. Começou a aparecer um circuito underground.

Existe grande rivalidade entre os grupos?

Y.S. — Eles tentam apoiar-se uns aos outros. Sempre que há um concerto juntam-se todos para assistir. Têm consciência de que se não se unirem ninguém mais os apoia.

P.M. — Aliás, vamos ter colaboração de outros rappers, até para dar oportunidade aos que não tiveram a mesma chance que nós.

Para o público que não frequenta as noites nem os festivais o único rapper é o General D?

Y.S. — Sim! Mas há muitos outros. Há rappers até melhores que General D. Há gajos com mais talento. O Boss A.C. é um deles, mas é muito cagão…

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