O dialecto amoroso da Doninha

Esquizofrénico. Hardcore. Pesado.Mas tambéa delicado. E inesperado. É assim o novo álbum dos Da Weasel — “Amor, Escárnio e Maldizer”. Fomos descobrir as nuances de uma Banda que se reinventa a cada canção. Quem haveria de dizer que o rap pode andar de mão dada com orquestras e pianos? Para já, por estas bandas falam-se “Dialectos da Ternura”.

Amor, escárnio e mal-dizer. Estes três ingredientes estão equilibrados no disco, ou há mais de um do que doutros?
Pacman (P): Acaba por haver mais amor… O nome era para ser “Amor, Amizade, Escárnio e Maldizer”, por causa das cantigas de amigo, mas achámos que não fazia muito sentido. O amor vem em primeiro lugar, e acabamos por englobar o escárnio e o maldizer na mesma categoria.

O primeiro single é “Dialectos da Ternura”. Quem é que fala este dialecto?
P: Epá… toda a gente! São aqueles dialectos que as pessoas inventam… Acabaram por não aparecer muito, mas a ideia é essa. Aqueles termos carinhosos e “nicks” que os namorados têm… É como dizia o poeta: todas as cartas de amor são ridículas. São para os outros, pois para ti faz sentido..

E entre vocês também têm esses dialectos e nomes “carinhosos”?
Jay-Jay(JJ): É mais escárnio! (risos)

Este é o vosso sexto álbum. Como é que o vêem em relação aos anteriores, em especial, em relação a “Re-Definições”?
JJ: É um álbum novo, são canções novas, gostamos de acreditar que houve uma evolução. Acho que passa necessariamente por aí. Tentámos, mantendo o nosso espírito e forma de estar na música, explorar novos caminhos.

“Re-Definições” foi um álbum que deu muito que falar. Este novo trabalho tem por isso urna grande responsabilidade: a de o superar. Quais são as vossas expectativas?
JJ: A responsabilidade está em, primeiro lugar, fazeres um bom trabalho. Procuramos dar às músicas o nosso melhor, escrever e compor o melhor possível para que fiquemos contentes com o disco. Essa é a principal responsabilidade e objectivo. A partir dai, obviamente, se o álbum disser alguma coisa às pessoas, irá evoluir naturalmente. Mas claro que depois da performance que o outro disco teve, essa será a primeira pergunta na cabeça das pessoas. O que é realmente importante a seguir ao trabalho anterior é estarmos contentes com o disco.

E estão contentes com este disco?
Coro: Nãããã… (risos)

Contam com muitas colaborações. Qual é a mais-valia de trabalharem com pessoas que vão desde Bernardo Sassetti e José Luís Peixoto aos Gato Fedorento?
JJ: Estas colaborações não estão aqui por acaso. Ou seja, não pensámos primeiro nas colaborações e depois nos temas. Quando as canções estavam criadas sentimos que havia pessoas que podiam dar o seu contributo e ajudar o tema a crescer. Procurámos que trouxessem o que a música precisava. Faltava-lhes um bocadinho assim (risos…) Se é isso que falta para a música crescer, ser adocicada ao ponto que pretendes, ai faz sentido.

E com isto os Da Weasel perdem um pouco a identidade ou evoluem para outros campos?
JJ: Os temas são Da Weasel, somos nós a tocar. Pedimos a pessoas que admiramos bastante para darem o seu contributo a algo que é nosso. Não se perde nada.
P: Pelo contrário, ganha-se. Descobrimos coisas que, se calhar, não sabíamos ter dentro de nós.

Quais são para vocês os ternas fortes do álbum — para além do single “Dialectos da Ternura — e porquê?
Coro:
É o álbum todo… (risos)
JJ:
Acho que esta é a única vez em que cada um de nós prefere um tema diferente. Nunca nos tinha acontecido… Normalmente coincidíamos sempre num tema ou noutro.
Quaresma: O disco está construído de uma forma em que consegues ouvir do principio ao fim e parecer-te só um tema.
P: Pela temática sim, mas não pela forma. Há contraste entre as várias músicas.
JJ: O próprio alinhamento do álbum começa pelo amor, passa pelo escárnio e acaba no maldizer. Por isso, era inevitável que estivessem ligados. Agora, quanto á forma, acaba até por ser um bocado esquizofrénico. Há cenas muito pesadas, mas depois, também o Sassetti ao piano.

Qual acham que vai ser a reacção a estes contrastes?
JJ: É um álbum que vem na linha de tudo o que fizemos. Navegámos sempre por ambientes muito diferentes e heterogéneos. Nesse sentido, é mais do mesmo. Mas tentamos ir mais além, ainda que os ambientes sejam os mesmos. Nas jams, nas desbundas, procuramos explorar de forma livre desde o hardcore até ao dub, o reggae, etc.

Hoje em dia, quando planeiam um novo álbum, pensam-no para que tipo de público?
P: Para nós. Eventualmente, quando as coisas estão feitas, até podemos pensar que talvez corra melhor para um lado ou para outro, mas a primeira cena tem de ser para nós. Temos consciência do nosso público, sabemos que gostam mais de um certo feeling, mas a cena principal é fazeres aquilo que gostas e sentes, não estares a pensar a quem é que vais chegar. Não há fórmulas para nada, são cenas directas. e contamos que gostem do que nós somos e do que fazemos.

Os Da Weasel já andam por cá há uns anos… Dada a vossa experiência e conhecimento da realidade actual, hoje é mais fácil ou mais difícil uma banda lançar um disco e ter sucesso?
P: É diferente. Por um lado podes gravar coisas em casa, há material que te permite obter uma certa qualidade. há a MTV. a Internet, tens uma maior abertura das rádios. Por outro lado, também estamos numa altura em que as músicas mudam muito rapidamente, é tudo muito volátil. as bandas são muito descartáveis. É um bocado ambíguo. Agora, para dar o primeiro passo, acho definitivamente que é mais fácil do que há 15 anos atrás.

Quais vão ser os vosso planos em termos de concertos para os próximos meses?
JJ: Vamos estar em dois festivais, o Creamfields, em Maio, em que somos cabeça de cartaz com os Prodigy, e o Alive, em Junho, com os Beastie Boys. E teremos dois concertos em Lisboa —provavelmente, os dois únicos que haverá em Lisboa este ano — com dois alinhamentos diferentes.

"Temos consciência do nosso público, sabemos que gostam mais de um certo feeling, mas a cena principal é fazeres aquilo que gostas e sentes, não estares a pensar a quem é que vais chegar." - Pacman

Gatos Nigga in the house!

Ah pois é! Os Gato Fedorento também gostam de amor, escárnio e maldizer – quem diria, hum? A prova é que são os protagonistas do tema “Ó Nigga, Tu És Nigga, Nigga?”, onde fazem algumas reflexões sobre a importância de ser nigga. E diz que é espetacular…

DIALECTOS DA TERNURA

Yoo
Ela diz que me adora quando a noite vai a meio
Eu sinto-me melhor pessoa, menos fraco, feio
Passa o dedo na rasta com a mão bem suave
Encosta o lábio no ouvido e diz-me: Queres que a lave?
Vamos para o chuveiro e ela flui com a água
Lava-me a cabeça, a alma e qualquer resto de mágoa
Diz que o meu amor lhe dá um certo calor na barriga
É aí que eu sei que quero ser para sempre aquele nigga
Que lhe mete a rir, rir, quando eu lhe faço vir
Da terra até à lua mano, é sempre a subir
E somos grandes, gigantes com dez metros de altura
Falamos vinte línguas, dialectos da Ternura
Tipo

(Refrão:)
Uhh, uhh!
Yeah, yeah!
Faz, faz!
bébé (2x)

Água morna em pele quente poro aberto não perfura
A minha alma já tá nua e eu faço-lhe uma jura, jura
Para sempre teu depois da noite volvida
Um segundo ao teu lado já preenche uma vida
O conceito de tempo não entra na sensação
Aquilo que vivemos tá gravado no coração
Segura na minha mão e continua a canção
É a melhor que já ouvi reinventaste a paixão
Ela diz que me adora quando o dia vai a meio
O copo passa de meio vazio para meio cheio
A palavra ganha vida e fala à minha frente
Sigo calmo atrás dela deixo crescer a semente
E Diz-me

(Refrão:)
Uhh, uhh!
Yeah, yeah!
Faz, faz!
bébé (4x)

Yeah, yeah!

Em cada beijo há uma frase, em cada frase há um verso

Em cada verso há um lado do lado inverso
De uma história que assombra a memória
Da leveza irrisória de uma conquista notória
Faço V de vitória, porque hoje eu sou rei
Ao lado da rainha com que sempre sempre sonhei
Foi por isto que esperei, em cada noite que amei
Ou pensei que amei porque é agora que eu sei
A razão da palavra consagrada
Que tanta gente dá à toa em troca de quase nada
Ela não tá espantada, pelo contrário, relaxada
Revê-se na expressão da expressão enamorar
E diz-me…

(Refrão:)
Uhh, uhh!
Yeah, yeah!
Faz, faz!
bébé (4x)

Uhh, uhh!
Yeah, yeah!

 

Para a TOPLESS
Texto: Laura Alves
Fotos: Filipe Rebelo

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