Crítica ao álbum “Dou-lhe com a Alma” na Blitz – Data: 1995

Eis um disco cheio de recados. Abre com «Adivinha Quem Voltou», uma espécie de manifesto «estamos aqui», apresentação da banda e promessas para 95. O que até faz sentido. Depois, no tema que dá o nome ao CD — «Dou-lhe Com a Alma» — diz-se coisas do género «Tanso, dizes que me conheces/ nem sabes no que te metes», «as tuas rimas só conseguem provocar/ dores de ouvido, cabeça e barriga» ou «Nunca persegui o comercial/ antes de tudo a minha música não é banal/ muito menos produto catalogado/ que as editoras tratam como gado». Lá que eles estão zangados, a gente percebe. Mas com quê e com quem?

Esse terreno misterioso não impede, contudo, que «Dou-lhe Com a Alma» traga um conjunto dos melhores poemas — mesmo se no reduzido panorama nacional — que temos ouvido. «Ressaca», p.e,, fala de drogas duras e do Casal Ventoso de uma forma acutilante; «O Meu Deus» faz a porra das perguntas que nos têm perturbado desde os tempos da catequese; «Educação (É Liberdade)», quase irónico, questiona: «É mais fácil matar que ler um livro, verdade?», e remata «é mais forte o homem que sabe criar um filho/ do que aquele que apenas prime um gatilho». Aqui estamos de acordo, a música serve para passar ideias e «Dou-lhe Com a Alma» não se furta a assumir as suas responsabilidades com coragem.

Mas apesar da profusão de palavras — que marca a viragem dos Da Weasel para a língua portuguesa — assinale-se desde já que este é um disco da melhor música que a cena rap tem produzido. Está, aliás, longe daquilo que é o paradigma actual do MC-DJ-caixa, de que o melhor exemplo são as excelentes linhas de baixo, sobretudo em «Essa Vida» e «God Bless Johnny» (a mesma versão que saiu no «100%» de celebração aniversariante do Johnny Guitar); ou a utilização do sampler em «Confirmar». Uma base hip-hop, sobre a qual assenta uma riqueza harmónica de deixar muita gente com àgua na boca. O sampler ajuda, mas não há uso excessivo de efeitos: ritmo e harmonia estão sempre em primeiro lugar, o que torna os temas audíveis, dançáveis, recicláveis e o mais que a disposição aprouver.

Com a participação de Boss AC e BMG, e ainda do produtor Ricardo Camacho nos teclados, «Dou-lhe Com a Alma» é o CD que nos vai tornar mais exigentes a nível musical para com o que vier a seguir. (4/5) (CD, Dinamo/BMG, 1995)

António Saraiva

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