Os Da Weasel estão de volta com um novo álbum, “Dou-lhe Com a Alma”. Mais maduros, a cantar em português e com um novo elemento, Pedro Quaresma, dos Thormenthor, a baralhar ainda mais os dados de uma banda de hip-hop que se recusa a fechar nessa designação. Para a entrevista com o BLITZ apareceram Yen Sung e Pacman, ficando de fora Quaresma, Jay Jay Neige (ou João Nobre, dos Braindead) e Armando (o mesmo dos Bizarra Locomotiva e Boris Ex-Machina).
Vocês editaram o primeiro álbum pela Margem Esquerda, uma etiqueta praticamente constituída para editar o vosso disco, mas acabaram por ser distribuídos e promovidos pela EMI.
Pacman — Não! Fomos distribuídos pela EMI e promovidos pela Margem Esquerda….
Mas a EMI tinha o direito de opção em relação a este segundo álbum dos Da Weasel; o que é que vos levou a optar por uma editora independente e não por uma multinacional?
P – Optámos pela editora que tinha os mesmos fins que nós.
Quais são esses fins?
P – Para já, é a total liberdade de criação que as multinacionais dizem que dão mas acabam sempre por não dar. E é fazermos isto aos poucos, não estar a pensar em fazer urna coisa que seja um grande hit e que o disco tenha que ir para o top. É deliniarmos um caminho para seguir, tanto a editora como a banda, e fazemos as coisas gradualmente.
Aquilo que me parece é que este novo disco é mais difícil do que o primeiro, apesar de ser cantado em português, é mais elaborado, muito mais difícil de entrar no ouvido que «More Than 30 Motherf***ers». O primeiro tinha alguns temas mais imediatos. Essa foi uma das razões que vos levou a não optar por uma multinacional, do estilo «os gajos não vão ver aqui nenhum single óbvio e…»?
P – Este não é um álbum para tu ouvires uma vez e apanhares tudo. Também não é para chegares à décima audição e já estares farto dele. Não é um álbum imediato. É um álbum para se ir ouvindo e ir entrando.
A maior parte dos temas musicais vêm creditados em nome do João Nobre. No entanto quando aparecem pessoas a dar a cara pelo grupo, ele, apesar de ser o compositor das músicas não aprece. O que é que se passa? E por causa da relação óbvia aos Braindead?
P — Sim, ele é um bocado a imagem dos Braindead. Mas isso de compor temas também tem muito que se lhe diga. Compor é, vá lá, a primeira ou segunda linha que aparece. Pode ser uma linha de baixo ou de guitarra e ele também pode fazer a música sobre um beat que alguém pode ter arranjado. Pode ter sido a Yen ou o Armando, depois o João compõe uma linha para a música e a partir daí cada um vai me-tendo as suas partes. Cada um tem o seu estilo próprio. Eu vejo a linha de baixo de uma maneira e meto a minha parte de uma maneira, o Quaresma já vê essa linha de outra maneira, à maneira dele, e põe uma guitarra. Funcionamos um bocado nessa base. O meu irmão quando compõe os temas não faz a guitarra e o baixo e já está.
É importante para vocês que haja tanta gente diferente, desde Djs a músicos de variadas áreas nos Da Weasel? Apesar de, curiosamente, quase nenhum dos músicos estar limitado a uma linha musical. Por exemplo, o Armando já tocou em quatro grupos ao mesmo tempo: os lk Mux (que já acabaram), os Bizarra Locomotiva, os Da Weasel, os Boris Ex-Machina e mais alguma coisa que apareça. O Quaresma esteve nos Lesma e está nos Thormenthor. O João Nobre nos Da Weasel e nos Braindead…
P – Os Braindead são um projecto rock, mas não é um projecto rock convencional, tal como os Thormenthor, na linha que praticam, também o não são… Estão a fazer uma coisa que não se faz cá. E mesmo uma visão muito diferente de death-metal. Cada um de nós, no estilo de música em que está, tem uma visão muito aberta. E é isso que interessa, não fazia nenhum sentido estarmos a ir buscar um gajo que fosse de uma banda de death-metal puro para ir tocar connosco: não tinha nada a ver. O que se passa é que os elementos desta banda são mesmo muito “open mind”. Por isso funciona bem.
Também é por isso que aparecem aquelas sonoridades todas no meio da vossa música? Aquele géneros que parecem saídos do espaço…
Yen Sung – Isso é que é bom. Nós temos influências diferentes uns dos outros, mas usamos isso tudo como informação. Temos o mesmo fim em relação à música; não somos elitistas nem radicais. Gostamos da música no geral. É por isso que trabalhamos bem juntos.
Vocês concordariam se dissesse que vocês são uma espécie de “hip-hop na Twilight Zone?”. É que vocês não pertencem a uma só dimensão da música, que pertencem a uma espécie de terra de ninguém e terra de muita gente. Tanto quanto me parece vocês não têm muito a ver com o rap nem com o hip-hop que se está a fazer em Portugal.
YS – O rap é rap e aí acho que temos tudo a ver com eles porque todos nós fazemos rap e pronto. Agora, em relação à maneira como nós queremos transmitir a nossa música, temos pontos de vista diferentes, estamos um bocado à parte do que se passa cá em relação ao rap. Mas nós queremos demonstrar outras coisas também…
P — Quem vir a fotografia da banda ou quem conheça os elementos percebe logo que aquilo não pode ser uma banda de rap convencional nem de nenhum estilo definido de música. Há temas de rap neste álbum como o «Confirmar», que é um tema de hip-hop rap. Depois, a partir do hip-hop que temos como base, arranjamos umas roupagens novas e espreitamos novos caminhos.
Se vocês tivessem que escolher, dentro do hip-hop, nomes com os quais se identificam, quais é que vocês apontavam?
Em termos musicais não há nenhuma banda. É mais em termos de atitude.
E em atitude?
P — Tento manter uma postura em relação à música semelhante à dos Bestie Boys, que têm neste último álbum uma abertura muito vasta — desde aquelas referências funk e psicadélicas dos anos 60 até ao hardcore. Acho que é um bocado aquela onda de estar sempre a procurar.
Não acham que isso é o caminho natural da músico?
P – Isso tem a ver com a sociedade; cada vez mais há mistura de raças e de culturas. Qualquer dia não há uma raça mas sim uma mistura. E a fusão de culturas acaba por ter consequências positivas. Ainda o outro dia vi um video dos Biohazard com o gajo dos Cypress Hill a cantar, e aquilo tem tudo a ver. A mensagem de coisas tão diferentes como o thrash ou o hardcore e o rap acaba por ser a mesma; são pessoas que vêm da rua e têm muita agressividade. Muitos gajos do thrash e do heavy metal começaram já a gostar de bandas de rap. Desde o «Judgment Night» que isso acontece. Se não se soubesse que eram bandas de campos diferentes a trabalhar juntas, a uma pessoa que estivesse completamente out até lhe parecia bem e não achava nada estranho.
Antes disso houve aquela primeira experiência entre os Aerosmith e os Run DMC e aquilo já resultava bem.
YS – Aliás, já o primeiro álbum dos Public Enemy é muito hardcore e tem muitas guitarras.
Também é por causa da fusão que neste disco aparecem quatro ou cinco línguas diferentes? Português, inglês, francês, um crioulo que não consigo identificar…
P – Era para haver até mais. Mesmo o «Educação (…é liberdade)» era para ser feito todo nessas quatro línguas; era um tema que onde quer que fosse ouvido, pelo menos nos targets que nos temos, fosse compreendido. Acabou por não haver tempo.
Falando em «compreensão», custou muito passarem das letras em inglês de «More Than 30…» para o português, que agora está em maioria neste disco?
P — Foi um bocado. Mas acho que é o que faz mais sentido. Trabalhou-se muito nisso.
Acho que há uma coisa que falhou neste álbum, as vozes e a sua colocação nos temas. Não haverá demasiadas palavras para aquele som?
P — Acho que no primeiro disco foi um bocado assim. Neste também não houve muito tempo para trabalhar esses aspecto, mas as coisas foram mais pensadas, mais cuidadas.
Uma coisa que salta à vista nas letras deste disco é que aqui há uma série de temas nobres — desde a religião a questões sociais, questões politícas e por aí fora — que não apareciam assim no primeiro álbum…
P — As letras do primeiro álbum eram mais intimistas e tinham mais jogos de palavras. Não era uma coisa directa. Isso também acaba por ser uma consequência do português. As palavras têm um sentido mais restrito.
Porque é que vocês vão buscar estas questões — por exemplo a história da confissão e de que o vosso Deus não é o mesmo Deus do padre; a história da ressaca que é aparentemente um caso pessoal, a da educação que pode ser generalista mas também pode ser um caso Pessoal…
P — Quando escrevo as letras não penso à partida sobre o que vou escrever, são coisas que me saem e não posso fazer nada. São coisas que sinto cá dentro e deito cá para fora.
Vocês acreditam que conseguem transformar alguma coisa, se não o mundo pelo menos algumas pessoas quando ouvirem estas canções?
P — Acho que sim. O que mudou a minha maneira de pensar foi a própria música.
Se há essa tentativa de identificação das pessoas com as vossas palavras, porque é que nas letras há tantas referências ao «eu» — eu sou o Pacman, eu sou a Yen Sung. Isso não é uma barreira entre vocês e as pessoas?
P — Não! É mais como se estivesse a falar com a pessoa na rua. Acaba por ser uma influência da escola do hip-hop e do rap. São coisas de que gosto muito. E é nisso que me identifico.
As coisas que a Yen canta são escritas por ti?
P — Algumas, não todas.
Como é que escolhem aquilo que a Yen vai cantar?
YS — Por exemplo, no «Educação…» há uma parte da letra que é mais carinhosa e achámos que ficava bem se fosse uma rapariga a cantar. E é nesse sentido que eu canto as letras dele.
Nas partes mais positivas?
P — Não é bem isso; é naquelas partes em que é preciso transmitir mais calor, mais sensualidade, que não sejam tão directas.
Porque é que vocês foram buscar o Boss AC e o B.M.G.?
O B.M.G. fomos buscá-lo por causa daquela ideia de cantarmos em várias línguas; ele é óptimo a cantar em francês. O Boss AC…
O Boss Ac canta de uma forma estranhíssima…
P — Aquilo é um estilo diferente… Uma das coisas que gosto de ver nos álbuns de hip-hop é o sentido de camaradagem que existe. Parte toda a gente no mesmo barco. Tu vais ver o álbum do Snoop Doggy Dog e há para aí dez MC que participam no álbum todo; o que é muito porreiro e resulta muito bem. No tema em que o Boss participa isso funciona como uma quebra, que é uma passagem de um hip-hop mais hardcore ou com outras fusões para um hip-hop puro. Ele é um MC de que gosto muito e se for preciso ainda havemos de fazer mais coisas juntos.
Este disco está muito mais produzido do que o anterior…
YS — O outro quase não foi produzido.
P — No primeiro não houve trabalho de produção. Foram três dias, dois a gravar e um a misturar. Não houve tempo.
E agora, estão satisfeitos? Vão continuar a trabalhar com o Amândio Bastos e o Ricardo Camacho?
P — Sim, já que funcionou tão bem neste álbum porque não noutro?
Vocês têm um plano de concertos que aparece em consonância com a Dínamo. Qual é que vai ser a formação dos Da Weasel?
Vamos ter todos os elementos que tocaram no álbum mais um baterista, Guilherme, que gravou o primeiro álbum dos Braindead, e mais um MC ainda pouco conhecido.
Vocês já têm a digressão preparada, estão a ensaiar?
Sim! O que nós queremos é que os nossos concertos não sejam banais. Trazer o que há de bom num projecto de hip-hop, que não tem os instrumentos, e trazer o que há de bom num projecto de rock, bateria, guitarra e baixo, tentar sacar o melhor que têm essas duas vertentes e juntá-las.
YS — Aquilo que nós queremos num concerto é transmitir energia e dinâmica e que nos álbuns de hip-hop por vezes é difícil transmitir.
Em relação ao estrangeiro, vocês têm alguma ideia? A Dínamo tem algumas ideias?
YS — Temos! Europa, América, Ásia. (risos)
António Pires
in Blitz